sábado, 29 de setembro de 2012

O mundo da diáspora e a resposta evangelizadora da igreja


Por rev. Gessé Almeida Rios

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (UNRHC) em sua Convenção de 1951 no artigo 1º, inciso 2º assim define refugiado:

"a expressão 'refugiado' se aplica a qualquer pessoa que, em virtude de fundado medo de sofrer perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, participação em determinado grupo social ou convicção política, se encontra fora do país do qual é nacional e está impossibilitada ou, em virtude desse fundado medo, não deseja se entregar à proteção desse país."

Existe certa confusão quanto às definições sobre migração internacional de povos. Basicamente são três os tipos de migração. Sendo estes o refugiado propriamente dito, o migrante internacional (MI) e o Deslocado Internamente (DI). Podemos defini-los da seguinte forma:

- Refugiado – Com base na definição acima podemos dizer que refugiados são aqueles que estão fora do seu país de origem por razões de segurança. A vida está em perigo.
- Migrantes Internacionais (MI) – Na categoria dos chamados MIs estão os que optam pela migração, ainda que temporária, para outros países em busca melhores condições de vida ou para aprimorarem carreira profissional. De acordo com a ONU são 175 milhões (http://www.unhcr.org/cgi-bin/texis/vtx/news/opendoc.htm?tbl=NEWS&id=44463fed4).
- Deslocado Internamente (DI) – Como o próprio termo sugere, são definidos como DIs aquelas que, em condições de sobrevivência desfavoráveis seja em virtude de conflitos armados, desastres naturais, etc. se deslocam dentro do próprio país. Conforme relatório da ONU, hoje existe mais de 37,4 milhões de DIs. http://www.guardian.co.uk/environment/2008/jun/17/climatechange.food#)

Neste artigo focalizaremos nossa atenção na mais na questão do refugiado no mundo hoje ou, como prefere o Movimento Lausanne, nos “Membros da Diáspora”. De início é preciso esclarecer que o tema não é novo. Trata-se de fenômeno tão antigo quanto à própria história da humanidade. Todos os países do mundo, em algum momento de sua história e em grau maior ou menor, geraram ou abrigaram refugiados. Portanto, não existe um povo que ainda não tenha experimentado o lidar com a questão. Tal fenômeno não escolhe raça, cor, religião, idade, gênero ou status social. E os números são cada vez mais alarmantes.

De acordo com o Jornal do Brasil online de 24 de março de 2009, em 2008 bateu-se o recorde de 67 milhões de pessoas refugiadas no mundo. (http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/03/24/e240326606.asp). Sendo os países da África, como República Democrática do Congo (DRC), Burundi, Ruanda, Somália, Sudão, e países do Oriente Médio os maiores responsáveis por estes números alarmantes.

Entre as situações mais recentes destacamos o que vem ocorrendo na Siria, onde milhares de pessoas curzam as fronteiras todos os dias em busca de segurança e abrigo. O Zimbábue de onde milhares continuam fugindo do regime ditatorial do presidente Robert Mugabe tem afetando sensivelmente os países visinhos, que por si só já sofrem com a falta de emprego para os próprios nacionais. Outro caso que chama atenção é o que vem ocorrendo no Sudão, recentemente dividido, por causa dos conflitos entre o norte e o sul, e mais precisamente os conflitos na região de Dar Fur que contribui com os cerca de 2,5 milhões de refugiados para campos como o de Djabal no Chade. Apenas para atender aquela situação a ONU dispõe de 3.3 mil soldados da EU para fazer a guarda e administrar 850 escritórios, a fim de manter a ordem. O que seguramente não são suficientes. Apesar da proteção oferecida existem acusações de que refugiados ali continuam sendo atormentados por guerrilheiros militantes de grupos rebeldes como o Janjaweed. Ataques a mulheres e crianças são ainda mais freqüentes. Recrutamento de menores para serem treinados como soldados infantis é bastante comum. O filme “Diamante de Sangue” estrelado por Leonardo Di Caprio é uma denúncia a esse tipo de prática. O Presidente do país, Omar Al-Bashir, está sendo acusado de genocídio e tem um mandato de prisão decretado por uma corte internacional. Mesmo com a recente divisão do país entre Sudão do Sul e Sudão do Norte a situação ainda é dramática.

Na República Democrática do Congo a situação não é diferente. Sobretudo na região Norte do Kivu. Vive-se uma verdadeira calamidade! Mulheres são estupradas, maridos mortos na presença de esposas e filhos, meninos são tomados para serem treinadas como guerrilheiros... As atrocidades são tantas que nem podemos detalhar nesse espaço a fim de não ferir a sensibilidade do leitor.

Diversos são os fatores que motivam a migração forçada. Entre os principais estão a fome, crises econômicas, perseguição religiosa ou política, conflitos étnicos, guerras (civis e militares), e o mais recente vilão, que são as questões relacionadas às mudanças climáticas. Segundo o programa Fantástico de 15/03/09 da Rede Globo de Televisão em menos de um século o fenômeno do “aquecimento global” será responsável por aproximadamente dois bilhões de refugiados no planeta. Apesar de parecer um número alarmante, tal prognóstico foi confirmado pelo próprio Alto Comissário da ONU para os Refugiados, na pessoa de seu secretário Antônio Guterres, o qual a classifica como “situação sem precedentes na história”.

Como resultado milhões de pessoas fogem das condições hostis em que se encontram e se espalha pelo mundo em busca de sobrevivência. Nessa busca mulheres e crianças são as maiores vítimas por serem mais vulneráveis. Tonam-se vítimas de toda sorte de abuso físico e emocional.  As condições a que são submetidos são, na maioria dos casos, de absoluta precariedade. Geralmente vão parar em acampamentos superlotados montados, geridos e supervisionados pela ONU, onde as condições de vida são limitadas e suas liberdades tolhidas. Isso em função da própria proteção dos acampados. Em outras situações, como no caso do Brasil, onde a presença de refugiados é mais recente, África do Sul e países desenvolvidos, os refugiados são propriamente documentados e inseridos na comunidade local. Assim desfrutam de certa autonomia, estudam, trabalham e interagem livremente na comunidade.

Na maioria das vezes esses refugiados entram como imigrantes ilegais utilizando-se dos mais variados meios de transporte. No caso dos refugiados africanos com os quais estamos acostumados a lidar sabemos de casos em que fogem das regiões de conflitos muitas vezes através de longas caminhadas noturnas no meio do mato para dificultar serem apanhados por guerrilheiros. Durante meses enfrentam feras e animais peçonhentos, suportam o frio da noite e o calor do dia, passam fome e são vítimas de suborno para terem passagem por tribos inimigas. Tudo isso em busca de uma sobrevivência mais digna. Em alguns casos se utilizam de caronas de caminhoneiros, escondem-se no meio de cargas e até mesmo em porões de navios.

Pagamento de propina é algo a que estão acostumados ao ponto de acharem que tudo na vida se resolve oferecendo suborno. Mesmo nas grandes cidades da África do Sul, tem-se notícia de que são extorquidos por maus policiais. São explorados dia e noite por aqueles que supostamente deveriam zelar pelo seu bem estar. Em função da situação de extrema necessidade acabam se submetendo à exploração como mão de obra fácil e barata. São igualmente vítimas das redes de exploração do tráfico humano, sobretudo pela indústria ilegal do sexo. E, para completar o quadro de abandono e desprezo, ainda são comumente tratados com toda sorte de expressões discriminatórias. Na África do Sul são comumente chamados de “amakwerekwere”. Uma maneira de se referir a eles como bárbaros, macacos, ou aquele que emite sons ininteligíveis. Crianças refugiadas crescem nesses ambientes hostis e, como conseqüência, alimentam ódio e desconfiança de tudo e de todos.

O outro lado da moeda é que também existem aqueles que se passam por refugiados. Ou seja, aqueles que se aproveitam da miséria alheia e infiltram em outras terras com motivos escusos. Migram apenas para fins de espionagem ou puramente com o objetivo de expansão religiosa, prática comum no mundo islâmico. Desconfia-se que determinados grupos radicais geram instabilidade para forçarem a migração da fé por meio de seus refugiados para outras nações menos islamizadas. Além disso, há ainda os foragidos da justiça em seus países que fogem para escaparem de crimes cometidos. Acompanhamos recentemente no noticiário brasileiro o dilema envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ex-integrante do grupo “Proletários Armados pelo Comunismo” (PAC), Cesare Battisti, foragido da justiça italiana. Portanto, nem todos que se apresentam nos departamentos de imigração estão buscando refúgio por uma razão justificável. Cabe aos referidos departamentos e Polícia Federal investigar cada caso e assim atender ou não tais pedidos.

E quanto a nós igreja em países receptores de imigrantes refugiados ou membros da diáspora? Como estamos vendo esse movimento de pessoas em torno do globo? São eles aos nossos olhos intrusos competindo no mercado de trabalho tirando as oportunidades dos nacionais? Ou os vemos como pessoas enviadas por Deus para receber o testemunho que a igreja tem para dar da verdadeira Luz? De que maneira estamos nos preparando para recebê-los e ministrar em suas vidas?

Uma coisa não se pode negar, a Bíblia dá atenção especial ao tema “refugiado” ou “estrangeiro”. Começando pelo fato de que muitos personagens bíblicos importantes enfrentaram o refúgio em terra estranha. Por exemplo: Caim (Gen. 4:16), Abrão (Gen. 12:10), José (Gen. 39:1), o povo judeu (Ex. 1:1-14). A experiência de ser estrangeiro foi vivida bem de perto por grandes servos de Deus. Moisés nasceu no exílio. O povo judeu no período profético viveu no exílio. Até mesmo Jesus experimentou viver como um refugiado (Mt. 2:13-15).

O propósito desse texto é nos encorajar a refletir sobre a necessidade de exercermos ministério entre refugiados. E há pelo menos três razões por que devemos fazê-lo:
1.       Para os pragmáticos da missão, a principal razão para o trabalho missionário entre refugiados é que se trata de um grupo estratégico. E é verdade! Muitos deles são pessoas bem esclarecidas e de boa formação. Portanto, se um dia voltarem para os seus conterrâneos como pessoas nascidas de novo certamente o impacto será grande no meio do seu povo. A história é repleta de exemplos que, por falta de espaço, não citaremos aqui. Se pensarmos apenas do ponto de vista do proselitismo podemos dizer que esta motivação já basta.
2.       Podemos ir mais além e afirmar que a ação missionária entre refugiados se justifica por se tratar de uma oportunidade para expressarmos de maneira concreta o grande amor de Deus que abriga o desabrigado, ampara o desamparado, cura o ferido, salva o perdido e traz plena libertação ao cativo.
3.      Mas, acima de tudo, entendo que uma investida missionária entre pessoas da diáspora se faz necessário por se tratar de um mandamento bíblico. Israel foi chamado por Deus como nação para que Ele fosse por ela apresentado aos demais povos. Foi chamado para refletir a Luz do Senhor para as outras nações? Nesse contexto, podemos encontrar diversas referências bíblicas nas quais, Deus expressa uma preocupação especial para com o estrangeiro - “o estrangeiro que vive no meio de ti...” Em Gen. 23:4 vemos uma prática de cortesia entre os povos evoluindo e tomando forma de lei em Lev. 19:10 (cf. Rute 2:2-23) – leis de proteção. E a lei das leis - “amar como a si mesmo” Lev. 19:34; 10:18,19; Dt. 10:17-19. Este mandamento divino, portanto, é a reafirmação de uma prática comum (uma espécie de lei que Deus havia colocado nos corações) de acordo com Lev. 23:22. Israel teria que tratar o estrangeiro que habitasse no meio dele não com uma lei diferenciada, mas com sua própria lei (Lev. 24:22; Lev. 15:16). Havia lei de proteção (Lev. 24:17) onde se requeria assistência integral (I Rs. 8:41). Em Jó vemos de maneira clara a prática do acolhimento ao estrangeiro como ato obediência a Deus (Jó 31:32).

Concluindo, não temos dúvidas de que estamos diante de uma realidade que afeta a todos nós. Cada vez mais teremos pessoas vivendo como refugiados principalmente nas grandes cidades. A pergunta que não deve calar é: de que maneira enxergamos essas pessoas? As vemos como intrusos que tiram nossas oportunidades e as dos nossos filhos, ou os como enviados por Deus para compartilhemos da graça salvadora que dEle temos recebido?

Muitos refugiados contribuíram para o mundo nos campos da religião, ciência, tecnologia, etc. Se os Estados Unidos, por exemplo, tivessem descriminado ou até mesmo rejeitado o pedido de refugio do casal Michael e Eugenia Brin, judeus de origem russa, talvez hoje não tivéssemos uma das maiores e mais úteis ferramentas de internet, a qual facilita a vida de muitos. Sergey Mihailovich Brin chegou como refugiado nos EUA aos 5 anos de idade para ser o co-fundador da Google.

Queremos ver a igreja abraçando o estrangeiro com o firme propósito de compartilhar sua fé em Jesus. Que o Senhor nos aguce a razão para refletirmos, abra os nossos olhos para enxergarmos e nos aqueça o coração para amarmos. Certamente, como resultado nações serão alcançadas para a glória do Nome que está acima de todos os nomes.