sexta-feira, 23 de março de 2012

A vida no refúgio

“Eu não estava preparada para enfrentar a dor de ser uma refugiada, mesmo depois de algumas prisões e torturas nas mãos do governo,” admitiu uma mulher eritreia.
“De repente, fui arrancada de todas as coisas familiares, o medo invadiu meu coração, e precisei contar com a boa vontade de estranhos, num país que não conhecia. O estresse de tentar superar a língua, e me adaptar a comer outros tipos de alimento  é muito difícil e muito solitário.”
Quando Mehret* se converteu aos 29 anos, já havia passado por várias crises dolorosas na vida. Depois de crescer em uma família rica, ela se apaixonou por um jovem de sua cidade, porém ele a abandonou quando ela manifestou uma doença de pele incurável.
No sexto mês de gravidez de seu filho, Mehret caiu em desespero e se jogou de sua varanda. "Eu ainda não estou certa se queria tirar a minha própria vida, a do meu filho, ou de ambos.  ",  afirmou.
Embora ela e seu filho recém-nascido tenham sobrevivido, ela ficou tão envergonhada por sua aparência desfigurada que passou a cobrir o rosto. Através de um vizinho cristão, que compartilhava o amor de Deus com ela e a levou para uma igreja evangélica, Mehret confiou em Cristo e começou a lidar com o fato de ser mãe solteira e com sua enfermidade.
Dez anos mais tarde, as autoridades da Eritreia começaram uma repressão feroz contra os cultos não oficiais e  Deus a levou a renunciar seu trabalho para dedicar-se  em tempo integral na igreja.
"Fui para a linha de frente quando o governo começou a perseguir os cristãos", disse ela. "Quando a nossa igreja foi fechada, me ofereci para hospedar comunidades secretas em minha casa. Então não me surpreendi quando fui presa em 2004."
Mehret não foi torturada e, depois de três meses, foi solta com severas advertências para parar de realizar reuniões da igreja. Mas ela não parou, e então quando foi novamente presa em 2006, foi espancada. Percebendo que sua vida estava em perigo, decidiu jejuar por intervenção de Deus. As autoridades da prisão entraram em pânico, pensando que ela estava em greve de fome até à morte. Após 52 dias, eles a liberaram sob a custódia de sua irmã.
"Eu estava muito magra e fraca, já que só tomava pequenos goles de água, mas aos poucos me recuperei."
A esta altura, os cristãos da Eritreia tinham estabelecido uma rede de apoio clandestino para contrabandear comida, medicamentos e até Bíblias para os cristãos presos. "Depois de ser detida duas vezes, eu entendi o impacto disso para os presos, e trabalhei ainda mais para enviar suprimentos", disse Mehret.
Então, em meados de 2009, um líder de sua igreja que havia sido preso por quatro anos ficou muito doente. Temendo que ele morresse na prisão, os oficiais  o soltaram  sob custódia. "Me foram dadas ordens estritas para que ninguém o visse ou houvesse qualquer contato dele com o mundo exterior."
Mas sua saúde continuou a deteriorar-se, e sem assistência médica adequada disponível na Eritreia, ele fugiu do país para buscar tratamento no Exterior.
Sua fuga deixou Mehret em risco, enfrentando as repercussões, uma vez que o Governo percebeu que ele estava desaparecido. Então ela fugiu um dia antes de as autoridades chegarem para prendê-la. "Eles saquearam minha casa e ameaçaram minha família, exigindo saber o meu paradeiro. Deus me tirou na hora certa!"
Uma vez foragida, Mehret foi levada por um companheiro refugiado que a conectou com a Portas Abertas. A equipe da Portas Abertas  auxiliou nas necessidades básicas, como o pagamento do aluguel, enquanto os documentos específicos para os refugiados estavam sendo processados, o que é sempre um processo muito demorado.
 "A equipe da Portas Abertas orou comigo e me incentivou, oferecendo sua amizade e apoio quando me senti desanimada", disse Mehret. "Neles eu encontrei uma nova família e, o melhor de tudo, posso ver o amor de Cristo em ação através deles."
"E eles nem notaram a minha doença na pele!", ela afirma. "Isso me ajudou muito, a me aceitar. Agora não cubro meu rosto."
"Ser uma refugiada é muito difícil. Sinto falta da minha família, especialmente do meu filho", disse Mehret. "Mas eu sou grata, porque tudo isso me ensinou a confiar no Senhor, de uma maneira que nunca fiz antes. Eu sei que me encontrarei com meu filho no lugar que Deus preparou para nós - talvez em outro país, ou aqui, ou quando eu voltar para casa, se a situação mudar.”
"Eu confio em Deus, porque Ele me prometeu: 'Eu tenho um lugar para você, minha filha. Seja paciente’. "
* Pseudônimo
FontePortas Abertas Internacional
TraduçãoCarla Priscilla Nogueira

terça-feira, 13 de março de 2012

Ore pela Somália

Somália

Os poucos cristãos são fortemente perseseguidos, e devem praticar sua fé em segredo. Alguns foram forçados a fugir para viver em outros países
A Igreja e a Perseguição Religiosa
A Igreja
Os primeiros missionários cristãos chegaram à Somália em 1881. Em quase um século de trabalho, eles conseguiram algumas centenas de convertidos, até que foram obrigados a se retirar do país em 1974.
O Cristianismo é uma religião minoritária na Somália: aproximadamente mil praticantes em uma população de mais de 9 milhões de pessoas. 
A maioria dos cristãos somalis pertence à etnia minoritária bantu. Não há perspectiva de crescimento da igreja na Somália para os próximos anos, devido à constante instabilidade política e econômica em que vive o país e aos constantes ataques de grupos radicais islâmicos.
A Perseguição
A falta de lei no país (não há Constituição, por exemplo) abre espaço para o crescimento do extremismo religioso, que é o grande responsável pela perseguição aos cristãos somalis.
Há uma Carta de Direitos do governo de transição, mas não possui restrições ou proteções à liberdade religiosa. Duas regiões no país - Somalilândia e Puntlândia - adotaram o islamismo como a religião oficial. Em ambas as regiões, os muçulmanos não podem abandonar o islamismo, sob pena de morte. Ou seja, para os somalis, o ex-muçulmano é um infiel, que merece a morte.
Extremistas têm acusado organizações cristãs de ajuda humanitária de aproveitarem o caos no país para divulgar o evangelho. Tais acusações acabam atraindo a atenção da mídia e levando a ataques públicos contra os cristãos por parte dos jornais locais. Além disso, os partidos políticos muçulmanos têm publicado relatórios que detalham os programas evangelísticos e advertem severamente o povo somali a manter distância de tais atividades. Desde que se tornou independente, em 1960, a Somália sofre com grupos radicais, como o Movimento Nacional Somali (SNM), o Movimento Patriótico Somali (SPM), o Congresso Somali Unido (USC) e o mais conhecido deles, o Al Shabaab, grupo radical islâmico criado em 2004, que domina algumas áreas ao sul do país e tem como objetivo principal derrubar o governo de transição da Somália e instalar um governo teocrático baseado na Sharia (lei islâmica). O Al Shabaab é financiado pela Al Qaeda: além de causar instabilidade política no país, esses grupos coíbem e reprimem qualquer possibilidade de trabalho missionário ou de evangelismo no país.
História e Política
A Somália está localizada no extremo leste do continente africano, na região semiárida conhecida como Chifre da África. O território somali apresenta paisagens variadas, com regiões montanhosas ao norte, desertos e savanas na área central e uma região subtropical ao sul. A origem do nome do país é incerta, mas Somália significa “terra dos somalis”.
Há na Somália artes rupestres que datam do período paleolítico, de aproximadamente 9.000 anos antes de Cristo. As evidências mais antigas de cerimônias funerárias no Chifre da África foram encontradas em cemitério da Somália, datadas do ano 4000 a.C. Na antiguidade, os estados-cidades que formavam a Somália desenvolveram um comércio muito lucrativo com os principais impérios da época (Egito, Grécia, Pérsia, Roma), aos quais fornecia especiarias como mirra e incenso.
No século VII os árabes se instalaram na costa da Somália, com o intuito de desenvolver o seu comércio na região e pregar a religião islâmica. A rápida adesão ao Islã por parte da população somali influenciou para que a religião se expandisse com sucesso por todo o seu território. No século XIX, as cidades litorâneas da Somália foram incorporadas ao Império Turco-Otomano. No século XX, tornou-se colônia italiana juntamente com a Etiópia, denominada Somalilândia Italiana; durante a Segunda Guerra Mundial, parte do seu território foi ocupada pelos britânicos.
A Somália tornou-se independente em 1960, quando italianos e britânicos se retiraram e o território foi unificado. Desde sua independência, o país tem tido conflitos com a Etiópia pela posse da região de Ogaden (Estado da Etiópia).
A Guerra Fria acabou por beneficiar a Somália economicamente, pois o país recebia subsídios da União Soviética em um primeiro momento; mais tarde, passou a recebê-los dos Estados Unidos. Apesar disso, os conflitos internos e externos acabaram por devastar a nação e sua população.
Em 1991, uma sangrenta guerra civil derrubou a ditadura governante e lançou o país em total desgoverno, com mais de 20 clãs armados lutando entre si pelo poder. Em 1992, as Nações Unidas intervieram no conflito, a fim de fornecer ajuda humanitária aos necessitados.
Embora o caos e a luta entre os diversos clãs ainda persistam em quase todo o território somali, um governo de transição foi estabelecido em 2004 para promover o processo de paz, após a iniciativa do presidente de Djibuti, Ismael Omar Guelleh, de reunir mais de dois mil representantes somalis em seu país.
O Governo Federal de Transição está situado na capital, Mogadíscio. A cada cinco anos escolhe-se um novo presidente para o governo de transição. No entanto, seu inimigo, a União de Cortes Islâmicas, embora tecnicamente derrotado, continua lutando, com a ideia de instaurar o caos e impor a lei islâmica à sociedade.
População
A maioria da população pertence à etnia somali, que se divide em inúmeros clãs. No entanto, os quatro maiores clãs - dir, daarwood, hawiye e isxaaq - respondem por aproximadamente três quartos da população do país. Os outros clãs, considerados inferiores, agrupam 20% dos somalis localizados no sul e uma minoria pertencente à etnia banta.
O islamismo é a religião oficial da Somália e, com raras exceções, a maioria dos somalis segue a tradição sunita. Há alguns hindus entre os indianos que trabalham no país.
A Somália é uma das nações mais pobres do mundo. Após anos de guerra civil, a economia entrou em colapso e é controlada por uma minoria que explora o narcotráfico, a venda de armas e o comércio de alimentos. A maioria dos somalis vive da pecuária e da agricultura de subsistência, dependendo dos programas de ajuda humanitária.
Economia
A economia do país foi praticamente devastada devido aos vários anos de guerra civil. A agricultura e a pecuária são os setores mais importantes da economia e correspondem a cerca de 40% do PIB do país. Devido às guerras e à fome, a Somália tem uma das mais altas taxas de mortalidade infantil do mundo; o país está entre os oito mais pobres do mundo.