segunda-feira, 6 de junho de 2011

Também não sou homofóbico

DOMINGO, JUNHO 05, 2011

NÃO SOU HOMOFÓBICO


Para não criticar sem conhecer, dei uma olhada no material do “kit contra homofobia”, do MEC. Depois de ver a coisa toda, o que ficou na cabeça foi uma sensação de viver no país do Pica-Pau Amarelo, do Monteiro Lobato, pleno das reinações de Narizinho com o pó de pirlimpimpim. No final de “A Reforma da Natureza”, Emília diz: “O nosso segredo é o faz de conta” – e, diante do desentendimento do Dr. Zamenhof, a boneca de pano conclui – “Pois faça de conta que entende” ( A chave do tamanho, SP, Brasiliense,1976, p. 124).

Como exemplo, um vídeo do kit, “encontrando José Ricardo”; pena que em nosso Sítio sempre mudem o nome do filme; saiu: “Encontrando Bianca”. Os argumentos do José Ricardo para a transformação da natureza têm a mesma consistência do reino encantado de Taubaté. Sonhos paternos de sucesso e pé na bola, sobra de piadas, unhas pintadas de vermelho, gripe fingida, preconceitos, roupa nova, troca de nome, sentir-se mulher e o grande desejo de usar o banheiro feminino – nada disso constitui argumento. Antes, relata uma história do coração que revela causas mais profundas. Usar o banheiro feminino não é sonho só do José; é sonho inconfessado de adolescentes e outros mal crescidos, e esse problema é o menor. Há problemas verdadeiros a serem discutidos.

(i) Um deles, josés e biancas, é o do tratamento do mau preconceito (pois há bons preconceitos como, por exemplo, o preconceito contra o mau preconceito). Nada justifica um ataque a alguém sem que haja causa justa e perigo iminente. Todas as pessoas, independentemente da identidade projetada, portam a imagem de Deus em virtude da Criação. Ofato de a pessoa natural se encontrar carente do reflexo adequado não significa que deverá ser mal amada. Com efeito, todos pecamos, de uma ou outra maneira, e alguns de nós carecíamos do entendimento de Deus (Rm 3.23) até que fomos refeitos à imagem de Cristo (2Co 4.6). Portanto, não nos cabe julgar as pessoas, mas mostrar-lhes o amor de Deus pelo pecador (Jo 3.16). Entretanto, isso não quer dizer que tenhamos de mudar nossa consciência cristã, fazendo do ruído do “eu” autônomo psicologizado e do super pó emiliano, uma imposição curricular.

(ii) Outra questão é a do próprio preconceito, isto é, da pressuposição que, quer queiramos quer não, está na base de todo comportamento. Algumas pessoas dizem que uma preferência de orientação sexual diferente da identidade sexual é coisa pecaminosa e causa de conflitos. Outras, dizem que esse tipo de preconceito é a própria causa de conflitos, e que os escolhedores ou indecisos necessitam de terapia. Contudo, os "sem preconceitos" acabam demonstrando preconceitos maiores. Por exemplo, a “terapia de identidade sexual” (Throckmorton & Yarhouse, 2006) faz isso ao propor uma congruência pessoal, confundindo potenciais conflitos de identidade sexual com religião e (pasme!) tratamento de desordens tais como dor crônica, abuso de drogas e depressão. Aí, vem a pergunta: o conflito existe porque a pessoa quer escolher e a cultura tradicional não deixa, ou o conflito existe porque fomos criados por Deus com identidade sexual definida e preferimos viver sem as restrições de Deus?
(iii) O bom senso leva a crer que valores tais como sexo e sexualidade sadia devam ser ensinados não só na escola, mas em casa, na igreja e em outras devidas esferas de autoridade. Entretanto, faz crer também que não é papel do governo determinar quais sejam esses valores nem impor sua própria ideia de quais sejam sadios. Como é que fica? No caso da Emília, a boneca ditadora, quando confrontada com a monstruosidade das consequências da reforma da natureza, decidiu: “Sempre achei a natureza errada...” – para que vaga-lume piscar-piscar, tanto beiço na Anastácia e dois chifres numa só vaca – “Erradíssimo. Eu... deixava tudo um encanto...” (op. cit., p. 90).Assim é que as leis são passadas em nosso Sítio. Emilianos e viscondes de sabugosas, de uma penada, querem transformar a natureza. Para quem achar ruim, vai a pecha, como encanto: homofóbico, homofóbico, homofóbico!

Não, não sou homofóbico. Sou homomórfico, preservando a igualdade e as diferenças (função biunívoca) da sexualidade e da relação sexual dentro do casamento. Sábia mesmo foi tia Anastácia que recomendou: “Não se ponham a ajudar os pintinhos a sair da casca senão eles morrem... Pinto sabe muito bem se arrumar sozinho. E não se esqueçam de molhar as mudinhas de couve lá na horta” (op. cit., p. 92).

Wadislau Martins Gomes

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