quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um grito de socorro - Parte II

Oi gente,

Aqui estou eu de novo... e dessa ve com uma dor maior...

Nunca me conformei muito com aquela coisa de que “não adianta falar que nada vai mudar”, mas a prova final disso veio este ano. Que maravilha!!! Pela primeira vez o povo cristão brasileiro ergueu a voz e mostrou que não está de bobo-alegre vendo a banda passar. Mostrou que nossos governantes não podem simplesmente nos ignorar e passar por cima de tudo o que cremos por nos considerar insignificantes demais. Não! Temos muito o que dizer, e o Brasil vai ouvir. Não podemos voltar a nos calar e intimidar.
É nesse espírito que quero compartilhar com vocês uma dor profunda, uma dor que já dura 20 anos!!! Uma dor quase solitária, desconhecida e que precisa ser gritada aos quato cantos desse país!

É a dor dos povos indígenas feitos cativos como animais em uma grande jaula, chamada floresta.

Devem se lembrar que quando visitei cada um de vocês, disse que havia sido criada em uma aldeia indígena, e até fiz alguns cumprimentos na língua deste povo. Pois então, o que não contei a vocês naquele dia, é que este povo está sendo mantido cativo há 20 anos! E este é apenas um dos tantos outros grupos que recebem o mesmo tratamento.

Em 1991, a FUNAI retirou a equipe de missionários da aldeia, com o argumento que este contato era prejudicial para o povo. E desde então eles tem sido mantidos isolados na selva, proibidos de manter contato com qualquer outro brasileiro que não seja cúmplice das pessoas que dominam aquela área.

Porém o tratamento que este povo tem recebido durante todo este tempo é muito semelhante ao que se faz com animais em um zoológico! Recebem comida, cuidados médicos e parecem saudáveis e felizes, enquanto recebem visitantes do mundo todo que tiram fotografias, fazem documentários, escrevem artigos, livros e teorias, exploram sua imagem e lucram às suas custas sem que eles nem saibam o que isso significa!!!

Este povo tem permanecido em cativeiro, sem direito à escolhas, sem o direito básico de ir e vir, e sem o direito de apreciar o própria cultura (como o fazem os estrangeiros ali) pois sequer sabem o quão são valorizados. Não têm o direito à educação em sua própria língua, muito menos em português, e assim continuam sendo tratados como semi-humanos, gente inferior que não pode gerir a própria vida.

Eu tinha apenas 11 de idade quando saí de lá... depois disso, já terminei o colégio, fiz faculdade, duas pós-graduações, conheci pessoas e lugares do mundo todo, e nunca deixei de ser brasileira, ou de ser mineira, só por que conheci o que me era diferente! Isso é possível porque me foi ensinado a valorizar o que sou.

Enquanto isso, meus amigos de brincadeiras no rio e na mata não sabem sequer escrever seu próprio nome!!! Não sabem sequer o quanto sua cultura é bela e o quanto eles podem se orgulhar disso. Não sabem que podem inclusive tirar lucro pessoal disso ao invés de sorrir inocentemente para câmeras que vão vender suas imagens em € (euro) sem que eles nunca vejam um centavo desse dinheiro!!!

Mas eles sabem que existe um mundo de recursos e opções que lhe são negados, e não estão felizes com isso. Quando a FUNAI retirou os missionários da aldeia, os índios choravam e diziam para os funcionárioa ali: "Nós não queremos que eles vão embora. Se vocês quiserem morar aqui também, podem ficar, mas não os tire daqui! Essa terra é nossa, e nós escolhemos quem mora aqui." Sabem qual foi a resposta do chefe da expedição? "A opinião de vocês não nos interessa".

A opinião dos donos da terra não os interessa!!! É assim que eles dizem respeitar as populações indígenas e defendê-las???!!! Ignorando suas escolhas, mantendo-as em cativeiro, e negando-lhes o direito à educação por mais de 20 anos???!!!

Choro enquanto escrevo esta carta, um choro que dói nas entranhas, mas quase não tem mais lágrimas, uma dor que nos consome por muitos anos... e meu desejo é que essa dor seja sua agora também! que você não consiga mais dormir ou orar sem lembrar de pessoas que vivem cativas dentro do nosso próprio país. Gente da gente, nosso povo!

Temos ouvido que, recentementr, estes índios tem tentado sair da área restrita e têem feito viagens exploratórias para outros territórios indígenas. Temos ouvido que ficaram indignados ao ver que existem tribos que mantiveram suas origens porém com a liberdade que eles nunca tiveram. E que quando retornam à aldeia sofrem retaliações por terem tentado sair.

Eles precisam ser libertos! Precisam ser tratados como adultos que são. Precisam ser tratados como cidadãos!!! E nós não podemos ficar calados diante de tanta injustiça. Não podemos ser coniventes com isso. Não podemos ser tímidos. Vamos gritar aos quatro cantos contra as injustiças que se espalham por nosso país!

Tanto se falou sobre o aborto nos últimos dias, mas nosso país está mergulhado em INIQUIDADE e se nos calarmos não somos dignos do evangelho que professamos!

Não fique calado diante do que você vê. O que tem ferido seus olhos e ouvidos onde você vive? Exploração sexual, desrespeito ao indígena, trabalho escravo, infanticídio de bebês nas aldeias, pornografia, acoolismo, delinquência e tantos outros!

Desejo ardentemente que seu coração esteja moído, seu peito sem ar, e seus olhos ardendo diante da iniquidade. Clame contra a iniquidade! Clame contra o povo! Clame ao Senhor!

Celinda Castro.

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