sexta-feira, 4 de julho de 2008

Que missão é esta?

Conforme Eugene Peterson com o uso as palavras se desgastam e já não surtem o mesmo efeito nos ouvidos das pessoas. Não conseguem apelar aos sentidos como antes por se tornarem banais e não representarem bem seu significado ou por representarem muitas coisas ao mesmo tempo. Nesta caso torna-se necessário a criação de outros mecanismos para explicar o que se pretende com esta ou aquela palavra.

Às vezes, com o passar do tempo muda completamente de sentido. Por isso Peterson defende que deveriamos "sacralizar" certas palavras e usá-las apenas o estritamente necessário, como no caso da palavra para "Deus", por exemplo. Os judeus nem mesmo ousam pornunciar o nome de Deus, o que é uma forma de preservar seu significado dessa corrosão natural.

Talvez não seja necessário chegarmos a esse extremo. Vale lembrar que todo extremo é perigoso. O equilíbrio deve ser sempre nossa meta.

Mas, será que o termo "Missão" está imune a esse tipo de desgaste? É claro que não. Já não serve mais para designar o que se pretendia no começo.

Missão militar, missão espacial, missão diplomática, missão política, missão... missão cristã, são apenas alguns sentidos em que a palavra tem sido usada. Porém, a questão não é o múltiplo sentido do uso do termo "missão" e sim, o sentido em que o termo missão tem sido empregado no contexto cristão.

Hoje o empregamos para designar muita coisa em termos de trabalho da igreja, e ao mesmo tempo quase nada.

Aluguns entendem a missão cristã como o ato de fazer proselitismo ou ao simples fato de fazer propaganda da fé. Há até quem imagine um missionário como um daqueles agentes de marketing nas esquinas das grandes cidades distribuindo folhetins todos os dias. Limita seu entendimento da missão cristã a uma mera propaganda religiosa, sem qualquer compromisso com o povo a ser alcançado.

Esse entendimento de missão tem lavado muitos marketeiros da fé a pensarem que tem o direito de interferir na vida de outros povos sem o trabalho viver entre eles e aprender deles mesmos sobre seus costumes e culturas, antes de estarem aptos a ensinarem qualquer coisa.

Entendo, é mais fácil e mais cômodo não me despir de minha cultura e do meu conforto para pensar como o outro pensa e viver como o outro vive. É mais fácil viver de meras "viagens missionárias", sem um projeto a longo prazo no meio do povo alvo. Sem ter que ter o compromisso de acompanhar qualquer resultado e digerir os conflitos que certamente haverão nesse necessário encontro com os valores do reino de Deus, coisa que só é possível no dia-a-dia, na beira do poço a tirar água, no mato a catar lenha juntos ou revendo sua ética na prática do coméricio.

Não me refiro a "viagens missionárias" como um projeto continuado com um determinado com alvos bem definidos, mas àquelas especulatórias em busca de "relatórios" na maioria das vezes fruto de uma visão superficial e distorcida que estas viagens lhes proporciona. E o que é pior, muitas igrejas imaturas no trabalho missionário acabam enaltecendo, alimentando e suportando este tipo de comportamento infantil.

Na verdade a missão cristã está muito mais relacionada à proclamação das Boas Novas do reino de Deus a étnicos que ainda não desfrutam do conhecimento do reino de Deus e seus valores. Trata-se, portanto, de algo muito mais profundo do que apenas fazer propaganda do Reino.

A missão cristã se define através do testemunhar de maneira efetiva acerca da graça salvadora de Deus aos povos onde Seu reino ainda não se encontra estabelecido. Isto requer investimento de tempo. Isto requer atitude de compromisso. Isto requer disposição de interagir no novo ambiente. Isto sim, é missão cristã.

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