terça-feira, 29 de julho de 2008

Carta de Oração

Cidade do Cabo, julho/agosto de 2008


Coragem não é a ausência de medo, mas a capacidade de inspirar outros a superá-lo – Nelson Mandela


A afirmação acima é do herói sul-africano na luta contra o Apartheid, Dr. Nelson Rolihlahla Mandela ou simplesmente Madiba que no dia 18 de julho completou 90 anos de idade. No início do mês a Revista Time homenageou esse grande estadista ao postar um excelente artigo de Richard Stengel com o título Mandela: Suas 8 lições de Liderança, sendo esta uma de suas lições. Foi exatamente isso que fomos chamados a fazer recentemente aqui na Cidade do Cabo, em meio ao medo ajudar outros a superá-lo.

Nos últimos meses o país viveu uma onda de violência contra estrangeiros, sobretudo contra refugiados, que culminou na morte de quase setenta pessoas. A maneira cruel como foram mortos, alguns a pauladas outros incendiados vivos, chamou a atenção do mundo. O que ficou conhecido como “ataques xenófobos” foi, também, um convite para nos envolvermos mais de perto e exercer o amor cristão no amparo e encorajamento de dezenas de pessoas que buscaram abrigo em nosso meio. Exigiu muito trabalho logístico da nossa parte, mas pudemos contar com enorme apoio de vizinhos e amigos que nos ajudaram a escondê-los e a providenciar alimentos, roupas, agasalhos e medicamentos necessários.

Numa situação, manifestantes até quiseram empurrar Alivere para fora do trem em movimento. Não o fizerem por estar nas últimas semanas de gestação. Refugiados tiveram que fugir de suas casas às pressas buscando abrigo em postos de polícia e igrejas. A maioria teve seus barracos saqueados e destruídos. Levaram tudo que achavam e alguns foram destruídos. O sentimento de medo estampado nos rostos dessas pessoas era mais que evidente. Louvamos a Deus porque, como Presbiteriana do Brasil, através da APMT, pudemos ser parte da resposta para o problema neste momento de dor.

Muitos ainda continuam em acampamentos improvisados montados pelo governo, monitorados pela ONU e protegidos pela polícia. Parte do grupo que ficou amparado em nossa igreja está num acampamento com mais de mil pessoas e continua recebendo algum apoio nosso. Uma vez por semana levamos alimentos e roupas que angariamos. Na semana passada quase fui agredido por refugiados revoltados com o descaso das autoridades. Tentam se valer de qualquer um para chamar a atenção do governo.

Mas nem tudo é dor. Desde nossa última carta tivemos momentos de grande alegria no trabalho. Um deles foi quando recebemos a visita de um grupo de crianças com o qual trabalhamos nos nossos primeiros anos aqui. Foram retirados por uma organização católica do abrigo onde viviam e assim ficamos impossibilitados de continuar trabalhando com eles, mas recentemente receberam autorização para nos visitar. Foi muito bom revê-los crescidos!

Estamos começando mais um semestre com novas pessoas interessadas nos programos do C-STEP (música, computação e costura). Agora estamos com onze pequenas classes de computação e digitação. Pessoas estranhas se tornam mais abertas e receptivas ao evangelho na medida em que desenvolvemos relacionamento de amizade nessa relação instrução/aprendizado. Ao passo em que servimos, encontramos meios de compartilhar a fé em Cristo e o amor de Deus capaz de salvar o perdido. Lamentavelmente estamos perdendo a ajuda do Pr. Cleber Balaniúc que estará se dedicando mais a outro projeto um pouco distante de onde estamos. Somos imensamente gratos pelo apoio que nos deu.

Prevendo a ajuda da Silvia por pelo menos mais um ano e meio (esperamos seja bem mais que isso) decidimos investir no projeto ajudando-a a se preparar melhor na área do trabalho evangelístico no contexto do desenvolvimento social. Ela estará fazendo um curso de desenvolvimento comunitário no Cornestone Christian College em Cape Town. Tal iniciativa tem contado com o apoio da Igreja Presbiteriana do Kenilworth e sua liderança.

No momento estamos celebrando a alegria do Daniel Neves por obter notícias dos seus familiares em Angola. Desde que deixou seu país no final da década passada havia perdido contato com os pais e irmãos. Pensava que haviam morrido na guerra. Graças a Deus todos estão vivos, apesar dos pais terem se separado. Ele continua empregado e agora conseguiu alugar um quarto muito bom com uma família cristã.

Apesar do cansaço, estamos todos bem. Um período de descanso um pouco mais prolongado se faz cada vez mais necessário. São mais de três anos que não tiramos férias de verdade. Estamos sonhando com a possibilidade de retornar ao Brasil para um período de seis meses, sendo dois para descansar e visitar familiares na Bahia e Goiás, e quatro meses para visitar igrejas envolvidas no projeto. Divulgamos um pequeno projeto para aquisição dos recursos necessários para as passagens e estamos aguardando retornos.

Algo que nos alegra muito é o fato de saber que D. Elvira (mãe da Iolanda) está bem. As radioterapias deixaram-na um pouco debilitada, mas seu sistema imunológico está mais resistente. Ela passou a consumir uma combinação de suplementos à base da aloé vera e sua qualidade de vida agora é outra. Estamos surpresos. Claro, não temos dúvidas que tudo isso é resposta de orações.

Nossos rapazes continuam muito bem nos estudos. Philipe na 10ª classe já preocupado com o próximo ano quando terá que definir muita coisa para sua futura carreira. Sabe como é, tempo de escolhas. O Léo ainda não tem tantas procupações assim. Guilherme tem ajudado cada sábado no programa de música dando aulas de bateria para o Jonathan. Ele teve notas excelentes no seu primeiro semestre de Universidade e está contente com os resultados, até garantiu um emprego de meio período para ganhar experiência em sua área de estudos. O salário não é lá essas coisas, mas vai ajudá-lo em suas pequenas despesas.

Em junho tivemos o privilégio de contar com a visita da Cris, uma irmã de Atibaia – SP, que muito nos edificou ao compartilhar a palavra de Deus em nossa reunião de língua portuguesa. Também tivemos o privilégio de rever o Rev. Mario Alves e D. Meire que estiveram em rápida visita à Cidade do Cabo.

Agradecimentos:

  • Pelos nossos 21 anos de casamento e pelas bênçãos resultantes dessa união no dia 11 de julho
  • Pelos nossos parceiros de ministérios que oram por nós sistematicamente, enviam-nos o sustento financeiro e nos dão apoio emocional
  • Pela APMT e seu dedicado time de trabalho no escritório em São Paulo. Fazem a diferença em nossas vidas
  • Pelo crescimento espiritual de alguns refugiados como Daniel Neves e o Jonathan (congolês) que recentemente tomou decisão de seguir a Cristo e está bastante entusiasmado com a nova vida
  • Pela nossa possibilidade de retorno ao Brasil no fim do ano
  • Pela melhora na qualidade de vida da D. Elvira. Suas orações têm sido fundamentais
  • Pelos estudos dos nossos filhos e pelo trabalho em tempo parcial que o Guilherme conseguiu

Intercessão:

  • Pelo cuidado de Deus sobre refugiados desabrigados. A chuva e o frio são intensos esta época do ano. Tem havido nevascas nas montanhas em volta da cidade
  • Por livramento para o Guilherme em suas idas e vindas à Universidade. A violência aqui continua
  • Pelos recursos para as passagens ao Brasil. Somente para o trecho daqui a São Paulo, ida e volta, será necessário o equivalente a R$ 14.250.00 (quatorze mil duzentos e cinqüenta reais) – atual cotação
  • Pela alta nos preços de alimentos e combustíveis
  • Pelo futuro da John Wycliffe Christian School onde nossos filhos estudam desde que chegamos à Cidade do Cabo. Querem tomar as instalações e não temos para onde ir nem recursos para comprar outro local
  • Pelo C-STEP e os projetos em andamento
  • Pelo Cristopher Mukiza e Daniel Sacassau que estarão assumindo interinamente a classe de música
  • Pelos novos missionários em processo de preparação para virem estudar inglês na Cidade do Cabo

Despedimo-nos com saudades e um grande abraço.


Rev. Gessé, Iolanda, Guilherme, Philipe e Leonardo.


sexta-feira, 4 de julho de 2008

Que missão é esta?

Conforme Eugene Peterson com o uso as palavras se desgastam e já não surtem o mesmo efeito nos ouvidos das pessoas. Não conseguem apelar aos sentidos como antes por se tornarem banais e não representarem bem seu significado ou por representarem muitas coisas ao mesmo tempo. Nesta caso torna-se necessário a criação de outros mecanismos para explicar o que se pretende com esta ou aquela palavra.

Às vezes, com o passar do tempo muda completamente de sentido. Por isso Peterson defende que deveriamos "sacralizar" certas palavras e usá-las apenas o estritamente necessário, como no caso da palavra para "Deus", por exemplo. Os judeus nem mesmo ousam pornunciar o nome de Deus, o que é uma forma de preservar seu significado dessa corrosão natural.

Talvez não seja necessário chegarmos a esse extremo. Vale lembrar que todo extremo é perigoso. O equilíbrio deve ser sempre nossa meta.

Mas, será que o termo "Missão" está imune a esse tipo de desgaste? É claro que não. Já não serve mais para designar o que se pretendia no começo.

Missão militar, missão espacial, missão diplomática, missão política, missão... missão cristã, são apenas alguns sentidos em que a palavra tem sido usada. Porém, a questão não é o múltiplo sentido do uso do termo "missão" e sim, o sentido em que o termo missão tem sido empregado no contexto cristão.

Hoje o empregamos para designar muita coisa em termos de trabalho da igreja, e ao mesmo tempo quase nada.

Aluguns entendem a missão cristã como o ato de fazer proselitismo ou ao simples fato de fazer propaganda da fé. Há até quem imagine um missionário como um daqueles agentes de marketing nas esquinas das grandes cidades distribuindo folhetins todos os dias. Limita seu entendimento da missão cristã a uma mera propaganda religiosa, sem qualquer compromisso com o povo a ser alcançado.

Esse entendimento de missão tem lavado muitos marketeiros da fé a pensarem que tem o direito de interferir na vida de outros povos sem o trabalho viver entre eles e aprender deles mesmos sobre seus costumes e culturas, antes de estarem aptos a ensinarem qualquer coisa.

Entendo, é mais fácil e mais cômodo não me despir de minha cultura e do meu conforto para pensar como o outro pensa e viver como o outro vive. É mais fácil viver de meras "viagens missionárias", sem um projeto a longo prazo no meio do povo alvo. Sem ter que ter o compromisso de acompanhar qualquer resultado e digerir os conflitos que certamente haverão nesse necessário encontro com os valores do reino de Deus, coisa que só é possível no dia-a-dia, na beira do poço a tirar água, no mato a catar lenha juntos ou revendo sua ética na prática do coméricio.

Não me refiro a "viagens missionárias" como um projeto continuado com um determinado com alvos bem definidos, mas àquelas especulatórias em busca de "relatórios" na maioria das vezes fruto de uma visão superficial e distorcida que estas viagens lhes proporciona. E o que é pior, muitas igrejas imaturas no trabalho missionário acabam enaltecendo, alimentando e suportando este tipo de comportamento infantil.

Na verdade a missão cristã está muito mais relacionada à proclamação das Boas Novas do reino de Deus a étnicos que ainda não desfrutam do conhecimento do reino de Deus e seus valores. Trata-se, portanto, de algo muito mais profundo do que apenas fazer propaganda do Reino.

A missão cristã se define através do testemunhar de maneira efetiva acerca da graça salvadora de Deus aos povos onde Seu reino ainda não se encontra estabelecido. Isto requer investimento de tempo. Isto requer atitude de compromisso. Isto requer disposição de interagir no novo ambiente. Isto sim, é missão cristã.