terça-feira, 3 de junho de 2008

Ubuntu e seu significado

Ao ouvir esse termo pela primeira vez o leitor pode pensar que se trate de entidade espiritual de um culto afro qualquer. Principalmente aqueles irmãos cujas mentes são limitadas pelo corrente evangelicalismo brasileiro tendente a mistificar toda e qualquer idéia que soa estranho aos ouvidos sem, contudo, uma investigação ou pesquisa mais acurada.

O termo ubuntu tem sua origem nas línguas do grupo Bantu da região sul do continente africano. Esse termo serviu de basa estrutural comunitária da civilizacao Xhosa antes do advento da colonização européia. "Ubuntu" simplesmente quer dizer "tratar humanamente os outros". Num sentido mais elaborado esta palavra significa: "eu sou o que sou por causa do que somos todos juntos", conforme define um de seus pensamentos filosoficos.

Existe uma frese Zulu que os mais velhos costumam usar. Ela diz: "Umuntu ngumuntu ngabantu". Isto significa:
Umuntu - Uma pessoa
ngumuntu - é uma pessoa
nga - através/por intermédio de
bantu - pessoas (na verdade abantu)

De acordo com Justice Yvonne Mokgoro da Corte Constitucional da África do Sul, ubuntu serve "como a base moral de cooperação, compaixão, comunidade e preocupação pelos interesses da coletividade, preocupação pelos outros, e respeito pela dignidade da pessoa; todo o tempo enfatizando a virtude da dignidade nas práticas e relações sociais".

O conceito em torno dessa palavra é tão importante que a Linux desenvolveu um software com esse nome, baseado no sentimento de solidariedade que ele representa.

Em Ruanda e Burundi é comum as pessoas adivertirem umas às outras com as seguintes palavras: "gira ubuntu" que quer dizer, "tenha consideração", ou "seja humano", em relação ao sofrimento alheio.

Mas, ao que parece, o sentimento de irmandade está se esvaindo do meio das sociedades africanas já há muito tempo. Os recentes ataques xenófobos desencadeados por nativos sulafricanos sobre africanos oriundos de outros paises, os quais deixaram mais de 60 mortos, exemplificam muito bem essa tendência.

Mesmo sem ser africanos, sentimo-nos impulsionados pelo sentimento de ubuntu a abrigamos e oferecer assistência (com comida, reupas, medicamentos, etc.) a dezenas de refugiados em nossa igreja aqui em Cape Town, todos fugindo da violência xenófoba nas favelas onde moram. No momento estamos a acompanhá-los no lento e perigoso processo de reintegração naquelas comunidades.

Estamos lhes ensinando a adotarem o espirito de ubuntu ao reagirem às provocações dos nativos. Assim, o que recebem estão procurando repartir com aqueles que lhes agrediram.

Afinal, não foi exatamente isso que Jesus nos ensinou? Amar o inimigo e orar por ele, oferecer a autra face, andar a segunda milha... O conceito de ubuntu não é novidade para os filhos de Deus.

Infelizmente, a corrompida natureza humana tende a lutar contra tudo aquilo que edifica e é capaz de construir uma sociedade mais justa.

Que Deus continue tendo misericórdia da África do Sul.

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