sábado, 17 de maio de 2008

Discriminação em dose dupla

Isso mesmo...

É exatamente o que se vive hoje na África do Sul, país sede da próxima copa do mundo de futebol em 2010. Discriminação...

Em 1948 estabeleceu-se na hoje Republica da África do Sul a política de segregação racial, através da qual criou-se uma série de leis a fim de oferecer ao governo mecanismos legais que lhe permitisse exercer controle absoluto sobre o movimento das pessoas.

Por carca de cinco décadas o governo controlava e limitava seus diversos grupos étnicos, inclusive impedindo qualquer possibilidade de mobilidade social, seja ela física ou econômica. Desse o estado determinava onde cada grupo de indivíduos poderia morar e que lugares lhes era permitido frequentar.

Essa política nefasta teve o seu fim com as eleições presidenciais de 1994, quando o bastião das forças que se opunham a tal regime, Dr. Nelson Rolihlahla Mandela, foi eleito o primeiro presidente da nova República da Africa do Sul. Filho de país cristãos, metodistas, esse homem sempre expressou valores cristãos em sua postura prática, coerente com suas convicções.

Naquela altura os mais otimistas em todo o mundo esperavam uma transição no mínimo conturbada, enquanto internamente muitos pensavam que veriam um banho de sangue.

Dr. Nelson R. Mandela, Madiba
Porém, o grande e respeitado estadista que no próximo dia 18 de julho de 2008 completará 90 anos de idade, mostrou ao mundo, e em em particular ao resto do continente africano, que não é possível governar, e nem mesmo viver, fundamentado no ódio porque o ódio nada constroi.

Levou seus patrícios a superarem o rancor causado pelas experiências brutais do passado e a buscar reconsiliação através da nobre disposição de perdoar. Com isso levou-os a ver o ódio como um veneno, um inimigo ao invés de uma ferramenta, uma mortífera.

Recentemente, participando de uma campanha nacional na televisão visando a regeneração dos valores morais na África do Sul, Mandela afirmou: "o perdão, além e antes de libertar o ofensor de sua culpa, liberta você do ódio e lhe deixa livre para viver novamente".

Esta foi sua atitude ao pavimentar o caminho para o perdão pelas atrocidades cometidas contra si mesmo e contra seu povo nos recentes 50 anos da história. Foi o primeiro a perdoar seus algozes. Isto é, perdoar àqueles que foram capazes de reconhecer a monstruosidade do Apartheid.

Após 26 anos encarcerado, tendo sua vida e juventude praticamente destruidas pelo tal regime, Mandela assume o poder e, quando cogitado para uma possível re-eleição no final do seu mandato, deu mais uma lição aos líderes políticos dos nossos dias obcecados pelo poder.

Entendeu que havia cumprido seu papel. Semeou iguldade entre os povos do seu país, criou o conceito de Rainbow Nation, restabeleceu a liberdade individual dos seus cidadãos e entregou o país em franco crescimento econômico. Um milagre em face ao cenário pessimista instaurado naquela época.

O mundo não imaginava que esse seria o caminho que a belíssima África do Sul iria percorrer. Todos esperavam o pior, mas pela graça de Deus isso não aconteceu.

No entanto, algumas das lições ensinadas por Madiba, parecem estar caindo no esquecimento coletivo.

Coincidentemente, à medida que vai perdendo seu vigou físico a nação parece também estar perdendo a nobreza e abandonando os valores que conduziram esse homem a unir a nação em torno do propósito de destruir aquele regime maléfico.

A discriminação agora parece ser da parte dos sulafricanos em relação a estrangeiros vivendo na África do Sul. No período do Apartheid muitos sulafricanos buscaram refúgio em outros países.

Zimbábue, por exemplo, recebeu e abrigou milhares de sulafricanos, oferecendo-lhes empregos e oportunidades.
População reunida em assentamento onde vem
ocor
rendo ataques a estrangeiros
Hoje estamos testemunhando uma onda de ataque de sulafricanos a zeimbabuanos que fogem para cá em busca de refúgio contra o regime ditarorial de Robert Mugabe a mais de 26 anos no poder naquele país.
Somente essa semana no mínimo 22 pessoas (refugiadas) já foram assassinadas, estupraram mulheres e centenas estão feridos. Alguns tiveram seus barracos e pequenos negócios incendiados e, como consequência, cerca de 6 mil pessoas estão buscando se esconder em lugares mais seguros como igrejas e delagacias de polícia.
Zimbabuano sendo queimado por manifestantes
anti-estrangeiros no distrio de Alexandra
em Johanesburgo
De acordo com a agência de notícias Reuters há aproximadamente 3 milhões de zimbabuanos buscando refúgio na África do Sul.
Existem igrejas e organizações não-governamentais buscando oferecer apoio e amparo às familias atingidas, mas passam também a sofrer intimidações.

O grande temor no país nesse momento é que o sentimento anti-estrangeiro vá além da província de Gauteng e se alastre para as outras 8 províncias.

Atitudes semelhantes a estas ocorreram recentemente em outras partes do país culminado com a morde de diversos refugiados somalis.

É! Parece que ainda não deu para aprender a lição ou caiu no esquecimento o quanto doi de ser discriminado pelo simples fato de pertencer a outro grupo étnico.

Sentimos profundamente a dor daqueles que conseguem escapar às crises dos seus países de origem na simples busca pela sobrevivência, mas continuam sendo procurados como se fossem criminosos.

Quanto a nós, que Deus nos livre desse mal!

Mas, afinal, que crime cometeram? Bom, ao que parece seu único "crime" é o ser estrangeiro.

Deus tenha misericórdia da África do Sul!

2 comentários:

Ricardo Reis disse...

Estava procurando informação sobre essa onda de violência e encontrei o que procurava. Parabéns. Muito bem observado essa terrível ironia: Depois de sofrer pesadamente a discriminação, estão reproduzindo o mal. Lamentavel! Estava pesquisando para postar alguma coisa, mas simplesmente vou "linkar" uma nota para seu blog para que pessoas possam ler na Fonte.
Ab.

Rev. Gessé Almeida Rios disse...

Olá Ricardo.
Seja bem-vindo!
A situação aqui continua fevendo e se alastrando para as demais províncias, o que era o temor de todos.
Fique à vontande para "linkar".
Um abraço.