sexta-feira, 14 de março de 2008

Artigo: De onde me virá o socorro?

Rev. Gessé Almeida Rios

Era o início da reconstrução do país. Moçambique havia mergulhado em mais de 20 anos de guerras. Foram praticamente duas: a chamada “Guerra Independentista”, que ocorreu entre os anos de 1964 e 1975 e a “Guerra Civil” entre os anos de 1975 e 1992, que praticamente arruinou o país. A população estava começando a respirar ventos de liberdade de poder ir e vir, sem a ameaça de serem apanhados de surpresa numa emboscada. As estradas eram poucas naquela altura e as que existiam estavam em péssimas condições. O sistema de esgoto e saneamento em quase todas as cidades tinha sido totalmente destruído por falta de manutenção. O saneamento precário aumentava a incidência de malária, primeira causa de morte no país, depois da AIDS/HIV conhecida ali como SIDA. Raramente tínhamos água nas torneiras, a sujeira dos esgotos escoria pelas ruas todo o tempo. O lixo se espalhava por toda parte. A eletricidade oscilava bastante, às vezes ficávamos horas e até mesmo, dias, sem energia. Mas a situação ia melhorando aos poucos e tudo isso eram apenas detalhes diante do futuro promissor que aguarda sua jovem população.

Nove meses haviam se passado desde que chegamos ao país como missionários da JME (Junta de Missões Estrangeiras) – atualmente APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais) - numa parceria informal de trabalho com a MIAF (Missão para o Interior da África). O período inicial de ajustamento ao novo ambiente cultural foi bastante difícil para nós. A saudade pesava muito, mas não tanto quanto as constantes doenças na família. Nossas crianças eram ainda bem pequenas. Nosso filho mais tovo tinha apenas dois anos de idade. De início passamos por algumas malárias com sérias complicações. O clima excessivamente quente e úmido da Cidade da Beira, capital da província de Sofala banhada pelo belíssimo Oceano Índico, complicava ainda mais as coisas. O calor intenso mesmo durante, um incomodo à parte, não nos permitia nem mesmo dormir o suficiente para repor as energias.

O constante barulho nas ruas até durante as madrugadas completava o ambiente hostil à saúde emocional de qualquer pessoa. Lá fora tudo parecia motivo de festa, ou de briga. Desde o nascimento de uma criança, um casamento, a chegada de um parente que estava morando um pouco distante, um casamento ou mesmo um funeral. Os tambores eram componentes imprescindíveis na maioria daquelas comemorações.

Além disso, a qualquer hora do dia ou da noite era possível ouvir pessoas conversando em voz alta discutindo um assunto importante, brigando, ou ainda pilando milho ou amendoim no andar de cima do nosso apartamento. O barulho intensificava nas operações “mbava”, o famoso pega-ladrão para o linchamento. Faziam isso com freqüência e por vezes acabavam matando o coitado. Toda essa situação aumentava ainda mais nosso nível de estresse.

Estávamos no período de adaptação aprendendo a conviver com as diferenças culturais e climáticas. Seguíamos nossa vida normalmente dentro do planejado procurando estabelecer relacionamentos e criar nosso ambiente de ministério. Apesar de todas as lutas, no aspecto ministerial as coisas corriam bem. No entanto as complicações aumentavam à medida que o tempo passava. Com três crianças pequenas e sem a nossa própria moradia sendo obrigados a morar hoje aqui amanhã ali, dificuldades com sustento para a família, além de uma doença “misteriosa” que abatia minha doce e amável esposa - Iolanda. Digo “misteriosa”, porque tanto nós como os médicos que consultávamos ficamos por mais de um ano sem saber que se tratava de uma depressão profunda. Graças a Deus, hoje ela está praticamente recuperada. Mas o pior estava por vir e nós não sabíamos!

As crianças estavam seguindo firmes seus estudos na Escola Portuguesa da Cidade da Beira e as férias escolares estavam prestes a chagar. Estava empenhado no ministério dando aulas no Instituto Bíblico da província de Sofala. Dentre outras matérias, estava lecionando a perspectiva bíblica da “Demoniologia” (estudo acerca dos demônios). Assunto crucial no ministério pastoral no contexto africano. Muitos dos nossos alunos eram pastores sem qualquer treinamento bíblico-pastoral. Para a grande maioria deles não competia a nós lidarmos com esse assunto, pois somente os curandeiros tinham autoridade sobre os espíritos.

Lembro-me do meu primeiro dia de aula nessa disciplina. Podia ver nos rostos dos alunos os olhares de medo e pavor dos espíritos. A opressão espiritual de grande parte da população é algo muito forte, mesmo os crentes vivem sob a cultura religiosa do medo. Os “espíritos dos ancestrais” têm mais autoridade sobre os familiares vivos que qualquer autoridade viva. Movido por esse conceito mm deles me perguntou:


- Professor, o senhor não acha que é muito perigoso estudar isso sem pedir autorização?

Perguntei-lhe de volta:

- “Autorização” de quem?

- Daqueles que são os responsáveis.

Respondeu ele.

Entendendo onde queria chegar, mas ao mesmo tempo desejando vê-lo romper o medo de tratar de assuntos dessa natureza, perguntei:

- Quais seriam os responsáveis?

Demorou um pouco para responder, aparentemente preocupado, temperou a garganta e começou falar dos poderes das trevas. De como se utilizam da autoridade dos ancestrais para dominarem sobre famílias inteiras. Relatou uma série de experiências horripilantes vivenciadas em sua própria família. À medida que falava parecia estar sendo invadido por uma forte onda de pavor. Interrompi e lhe disse:

- Estamos todos nós aqui debaixo da mais alta de todas as autoridades. Todos nós já fomos lavados pelo precioso sangue de Jesus. Nenhum poder terá mais domínio sobre nós, a não ser somente o poder de Deus. Em seu sangue fomos purificados de toda impureza que nos obrigava a viver dominados pelo medo e de Satanás. Agora somos livres... totalmente livres. Por causa do sangue de Jesus sobre nós, é o nosso inimigo quem fica incomodado com a nossa presença.

Então respondi a sua pergunta:

- Ele não só me autorizou a ensinar a verdade sobre isso como me ordenou fazê-lo.

Ele, não satisfeito retrucou:

- Mas o senhor não tem medo do que possa acontecer?

- Claro que não! Maior é a força e a autoridade d’Aquele que está em nós do que a força a autoridade d’aquele que está agindo no mundo. Respondi parafraseando 1Jo 4.4.

Como dentro dos próximos dias também teríamos um intervalo letivo de duas semanas no Instituto Bíblico, decidimos então aceitar um convite de um dos nossos colegas missionários para passarmos aqueles dias de férias na simpática cidade de Bulowayo no Zimbabwe. Já estávamos em Moçambique havia seis meses. O plano era ficarmos 15 dias na fazenda de um casal de amigos naquela cidade. Começamos os preparativos. As crianças estavam bastante animadas com a idéia da viagem. Era um tempo para Iolanda recuperar-se um pouco e fazer alguns exames médicos na busca de uma resposta para o que estava sentido.

Conforme combinamos, saímos da Cidade da Beira às cinco horas da manhã da Quarta-feira dia 25 de setembro de 1996. Como costumamos fazer antes de colocar o pé na estrada em qualquer das nossas viagens, encostamos o carro na saída da cidade nas proximidades do bairro da Manga para um período de oração. Guilherme, nosso filho mais velho que naquela altura estava prestes a completar sete anos de idade, disse:

- Deixe eu orar! Por favor, deixa eu orar!

Ele estava tão eufórico... Consentimos que orasse e ele começou:

- Papai do céu abençoe a nossa viagem e protege a gente até o “Buluaio”. Em nome de Jesus, Amem!

Terminada sua oração todos concordamos com um caloroso “Amém” e seguimos viagem sabendo que teríamos pela frente um longo dia de sol e muito calor.

O clarão no céu sobre o Oceano Índico atrás de nós indicava que logo o sol apontaria no horizonte. Durante as três primeiras horas de viagem aqui e ali nos deparávamos com um trecho sob forte neblina. No mais tudo corria muito bem! As crianças iam se divertindo, cantavam, brincavam, contavam histórias, riam... e, como é próprio delas nessa idade, de vez em quando tinham uma pequena rixa. O ambiente era mesmo bastante agradável. Não havia muito movimento na estrada, exceto nas barreiras nos trechos interrompidos pela empresa brasileira, Odebrech responsável pela reconstrução da estrada. Após sermos liberados nessas paradas, tudo corria normal. Quatro horas de viagem se passaram e já havíamos percorrido aproximadamente duzentos quilômetros. Repentinamente o inesperado aconteceu.

Havíamos feito uma pequena parada para estirar as pernas há pouco mais de trinta minutos. Nossos amigos também pararam. Conversamos um pouco, fizemos um pequeno lanche e voltamos aos carros. Nosso filho mais velho pediu-nos para deixar o nosso carro e seguir viagem no carro dos nossos amigos para ir conversando com os filhos deles. Concordamos com isso, assim sobraria um pouco mais de espaço para os dois mais novos, de 3 e 5 anos, dormirem um pouco. Retomamos a viagem e logo, os dois vencidos pelo sono sem o hábito de levantar tão cedo, começam a dormir. Cerca de 20 minutos depois entramos num trecho da rodovia completamente restaurado e liberado pela empresa brasileira, porém, sem qualquer sinalização.

Alguns quilômetros à frente, um grande precipício. Exatamente no meio de uma curva fechada, num decida que culminava com uma ponte sobre um rio a 3 km da Vila de Manica, a construtora havia retirado o asfalto e colocado cascalho solto nas cabeceiras da ponte sem qualquer sinalização. Resultado, perdemos o controle do veículo. O carro derrapou sobre o cascalho e rodou sobre a ponte. Em seguida foi contra as grades de proteção, rompendo-as e caindo no leito do rio.

Naquela fração de segundo que mais parecia uma eternidade, sob intensa descarga de adrenalina que paralisou praticamente todo o meu corpo, tudo a que tive tempo e me restou a fazer foi gritar: JESUS! Não advogo haver qualquer poder na palavra em si mesmo, mas na oração de desespero que, apesar de curta, disse tudo que precisávamos dizer naquele momento. Deus entende perfeitamente nossos clamores ainda que não sejam cheios de palavras bonitas e bem elaboradas. Deus entende! Foi o meu “Amém” prático à oração do nosso filho ao deixarmos a cidade quando disse:“...protege a gente”. Naquele curto espaço de tempo quase impossível de ser medido ainda tive tempo de experimentar sentimentos horríveis que certamente não foram semeados por Deus em meu coração. Estava ali um homem de carne e osso, sujeito aos temores e lutas comuns a todos os homens. Experimentei uma enorme sensação de culpa e fracasso. Não pude evitar ter que enfrentar meus próprios questionamentos do tipo: Como posso ter feito isso? Como pude tirar a minha família de sua situação de segurança, cercada pelos familiares em seu país para destruí-la aqui na África nessas condições? Veio-me à mente as palavras de uma colega que tentava me dissuadir de não ir em frente com plano de seguir para a África com a família, chamando-me de louco.

De onde nos viria o socorro naquele momento? Como o salmista (Sl. 121.1,2), continuava convicto de que o nosso socorro só poderia vir do Senhor. Deus entendeu e traduziu em oração os sentimentos do meu mais profundo íntimo que não puderam ser expressos em palavras. Não houve tempo para isso, mas Ele sabia que no meu coração Ele é o único socorro bem presente, jamais ira recorrer a outra fonte sobrenatural fora dEle. Mesmo com os sentimentos confusos, minha única esperança de livramento de algo mais grave residia somente em Deus. É dEle que vem o nosso socorro como de fato aconteceu.

O carro, já parcialmente destruído pela batida contra as grades de proteção da ponte, desceu em queda livre de cerca de 6 metros de altura contra as pedras no leito do rio. Como não era período de cheias e não se tratava de rio perene, havia apenas um filete de água correndo. Assim não tivemos problemas com água. Pneus e amortecedores estouraram com impacto da queda. Estávamos todos presos dentro de um bolo de ferros retorcidos. Havia muita poeira e a visibilidade era a mínima, mas pude perceber movimentos dentro do carro e em seguida escutar choros. Com muitas dores na cabeça, no tórax e coluna, consegui ajudar minha esposa e as crianças sair. Era quase impossível dar um passo, mas tínhamos que subir os barrancos do rio até chegar à estrada. As crianças choravam desesperadamente e não conseguiam andar. Nós também não podíamos apanhá-las.

Graças a Deus nosso colega, que estava num carro maior e mais pesado, conseguiu passar sem problemas pelo local. Ele logo viu pelo retrovisor uma grande poeira e percebeu que não o seguíamos mais. Assim, retornou ao local do acidente e, com sua ajuda, fomos levados a um hospital na cidade Mutare já no Zimbabwe. Um dos nossos filhos sangrava muito e à mediada que nos refazíamos do susto as dores aumentavam. Depois de várias horas no hospital e alguns raios-x, contatou-se que nenhum de nós tinha qualquer fratura. As dores, especialmente do tórax, sentiríamos com muito mais intensidade nos próximos dias e por meses, como de fato ocorreu. Nosso filho que sangrava muito no rosto tinha apenas um pequeno corte no supercílio. No final ficou constatado que cada um de nós tinha apenas algumas luxações, mas nada mais grave.

Já em casa de irmãos zimbabuenses em Mutare, onde fomos carinhosamente hospedados e tratados por alguns dias enquanto nos recuperávamos um pouco, soubemos que já haviam acontecido outros acidentes no mesmo local. Um dia depois, mais dois acidentes com vítimas fatais. Só então a empresa decidiu colocar avisos de perigo no local.

Deus usou e tem usado esse acontecimento para ensinar a nós e a outros, grandes lições. Algumas dessas oportunidades de ensino vieram logo a seguir. A primeira aconteceu com o nosso próprio filho mais velho, que havia orado no início da nossa viagem. Algumas horas depois de havermos saído do hospital ele se aproximou da nossa cama com lágrimas nos olhos. Parecia estar profundamente triste e magoado com Deus. Perguntamos o que estava se passando, mas ele continuava calado, apenas chorava. As lágrimas desciam pelo rostinho outrora radiante e eufórico com a viagem. Então, dissemos: você não está feliz que o papai, a mamãe e seus irmãos estão todos bem? Como continuava calado pedimos que nos contasse o que estava sentido. Chorando, já em soluços, disse:

- Deus não cuidou da gente. Eu pedi pra Ele cuidar da nossa viagem e Ele não cuidou. Eu pedi pra Ele guardar a gente e Ele não guardou.

Entendemos os sentimentos dele e lhes dissemos que Deus lhe dava o direito dele pensar assim, de estar chateado e até entendia sua frustração, mas não era verdade o que ele estava dizendo. Mostramos para ele que apesar de termos perdido o carro, apesar de estarmos na cama sentindo dores, apesar termos as nossas férias comprometidas, Deus estava cuidando de nós e nos protegendo. Mostramos para que ele que Deus permitiu tudo aquilo acontecer, mas não nos abandonou. Nenhum de nós havia morrido, não tivemos nem mesmo fraturas. Deus providenciou nossos amigos para nos socorrer. Deus providenciou médicos para nos ajudar. Deus providenciou uma casa para ficarmos até nos recuperarmos um pouco mais. Deus estava cuidando de tudo porque Ele sempre cuida de nós. Fizemos que ele entendesse que tudo aquilo era parte do cuidado e proteção de Deus. Depois de algum tempo em silêncio, cabeça baixa como se estivesse meditando no que havíamos dito, já sem as lágrimas e os soluços, levantou-se com a seguinte conclusão:

- Já sei papai. Os demônios jogaram o carro no rio e Deus mandou os anjos segurarem pra não cair com força.

Ele entendeu que o poder de Deus está acima de qualquer poder. Entendeu que Deus está no controle mesmo quando parece que estamos perdendo. Entendeu que nossa segurança e socorro sempre virão do Senhor. Entendeu que há outras forças e poderes, mas a segurança verdadeira está somente em Deus.

A segunda oportunidade de usar através essa dura experiência com o prpósito didático aconteceu dias depois. Já um pouco recuperado e de volta à sala de aula no Instituto Bíblico percebi que havia uma grande expectativa da parte dos alunos. Parecia-me pairar no ar o argumento daquele aluno. Algo como: - Eu não disse! Não se pode mexer nessas coisas sem “pedir autorização”. Havia uma espécie de suspense entre eles. Durante a aula resolvi trazer de volta a questão levantada pelo aluno, perguntando:

- Muito bem! Estão preocupados com o que aconteceu? Acham que o inimigo levou vantagem?

Continuaram calados como se ainda estivessem chocados com a notícia do acidente e de me verem de volta ali depois de 20 dias. Então lhes disse:

- Sei que muitos de vocês ficam assombrados com o poder dos espíritos demoníacos, que alguns entendem ser o poder dos espíritos dos seus ancestrais. Pois bem, para mim o que há de mais espetacular é o poder de Deus. Depois do acidente eu e minha família ficamos ainda mais maravilhados com o poder de Deus ao estender Seu forte braço de livramento sobre nós. Nosso coração se inundou de alegria, apesar das dores. Deus permite Satanás intentar contra nós, sempre com um propósito, mas jamais nos deixa sozinhos. Por outro lado Ele jamais permite que isso ocorra sem estabelecer um limite. Nosso inimigo só atua até onde Deus permite que ele vá. Nossos olhos não estão no que ele e seus demônios podem fazer, sob a permissão de Deus, mas naquilo que somente Deus é capaz de fazer – salvar.

Pude ver seus rostos surpresos através de olhos arregalados. Era comum um ou outro dormir na sala de aula depois de um dia cansativo de trabalho. Naquela noite participaram de toda a aula sem um cochilo sequer. Dali por diante o medo de lidar com coisas ou situações relacionadas a espíritos malignos (demônios) caiu por terra. Passaram a entender mais claramente que o poder de Deus está acima do poder das trevas e cabe ao crente viver debaixo da autoridade e poder do Senhor, sem qualquer temor.

Aquela, sem dúvidas, foi uma experiência com profundo efeito didático. Ele queria nos ensinar de um modo prático sobre o Seu livramento. Não havia maneira para uma criança entender melhor sobre o socorro de Deus. De igual modo para a mente africana acostumada a coisas concretas, verdades abstratas não fazem sentido fora do ambiente da prática.

Ficou mais do que claro para todos nós: do Senhor vem a nossa força e a Ele pertence o livramento no dia mau.

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